Autores de artigo da Lancet recuam após contestação metodológica de Marcelo Queiroga
Correspondência publicada pela The Lancet Regional Health – Americas reconhece que estudo não demonstrou relação causal entre decisões políticas e redução da expectativa de vida durante a pandemia
João Pessoa (PB) – A revista científica The Lancet Regional Health – Americas publicou a resposta oficial dos autores do artigo Burden of disease and life expectancy decomposition in Brazil and its federated units, 1990–2023, após a correspondência encaminhada pelo ex-ministro da Saúde Marcelo Queiroga, pelo epidemiologista Roberto Carlos Maia Parente e por Fábio Cardoso, que questionou a interpretação causal apresentada no estudo sobre a redução da expectativa de vida dos brasileiros durante a pandemia de Covid-19.
No artigo original, os autores afirmaram que o Brasil perdeu 3,4 anos de expectativa de vida durante a pandemia e atribuíram esse resultado, ainda que parcialmente, ao chamado “negacionismo”, ao atraso da vacinação e à descoordenação da resposta nacional, interpretação amplamente reproduzida pela imprensa como uma conclusão científica.
Na correspondência publicada pela revista, Queiroga e os coautores demonstraram que o estudo utilizou um desenho ecológico baseado em dados agregados do Global Burden of Disease (GBD), metodologia que não permite estabelecer relações de causa e efeito entre decisões políticas específicas e desfechos populacionais complexos.
Resposta dos autores representa recuo metodológico
Na resposta agora publicada, os próprios autores reconhecem que “em nenhum momento pretendemos demonstrar efeitos causais de decisões políticas específicas, políticas públicas ou fenômenos sociais”. Também afirmam que a referência ao chamado negacionismo foi “deliberadamente formulada como uma hipótese geradora, e não como uma conclusão causal” e admitem que estudos observacionais em nível populacional apresentam “limitações inerentes para inferência causal”.
Para Marcelo Queiroga, essas declarações confirmam o núcleo da crítica apresentada.
“Os próprios autores reconhecem que o método utilizado não permite estabelecer relações causais. Se é assim, não existe base científica para responsabilizar o governo Bolsonaro, a Emenda Constitucional nº 95 ou um suposto atraso na vacinação pela redução da expectativa de vida dos brasileiros. Essa foi exatamente a advertência que fizemos à revista.”
Debate é sobre método científico
Segundo Queiroga, a controvérsia não diz respeito às estimativas produzidas pelo GBD, mas à extrapolação interpretativa feita pelos autores.
“Nunca questionamos as estimativas do Global Burden of Disease. O que contestamos foi a utilização de um estudo ecológico para sustentar acusações de natureza política. Associação não é causalidade. Esse é um princípio elementar da epidemiologia.”
O ex-ministro também destaca que a campanha nacional de vacinação realizada durante sua gestão distribuiu mais de 500 milhões de doses, uma das maiores operações de imunização do mundo, tornando ainda mais controversa a alegação de atraso vacinal.
Pedido de retratação
Após a publicação da resposta, Marcelo Queiroga defende que a The Lancet Regional Health – Americas reavalie o artigo original.
“Quando os próprios autores reconhecem que seu estudo não demonstrou causalidade, que suas interpretações eram apenas hipóteses e que o método possui limitações inerentes para esse tipo de inferência, torna-se necessário corrigir o registro científico. A credibilidade da ciência depende da fidelidade entre os dados produzidos e as conclusões apresentadas.”
Para Queiroga, o episódio reacende um debate mais amplo sobre a necessidade de preservar a independência da pesquisa científica.
“A ciência deve ser guiada pelas evidências, nunca por preferências ideológicas. Quando conclusões ultrapassam os limites do método, a literatura científica deixa de esclarecer a sociedade e passa a alimentar narrativas políticas. A ciência não pode ser instrumento de ativismo político.”
