A decisão de Donald Trump de taxar em 50% os produtos brasileiros chegaram como um soco no estômago de um país que, há anos, tenta se afirmar como protagonista no comércio global.
Durante décadas, os Estados Unidos enxergaram o Brasil como um aliado comercial conveniente, um player “café com leite” que nunca ousou desafiar a ordem estabelecida. Mas os tempos mudaram.
O Brasil, sobretudo nos últimos anos, começou a almejar um papel mais independente, aproximando-se do BRICS, fechando acordos com rivais diretos dos EUA e até mesmo sugerindo a substituição do dólar no comércio internacional. E foi aí que a relação começou a azedar.
A esquerda brasileira, é claro, apressou-se em culpar Jair Bolsonaro pela medida, citando a carta de Trump que menciona os “julgamentos injustos” contra o ex-presidente como justificativa.
Não há dúvidas de que há chantagem nesse movimento: a sugestão de encerrar processos em troca de rever as taxas é, no mínimo, um ultimato descarado.
Mas reduzir essa escalada de tensões a uma mera retaliação pessoal de Trump é ignorar o verdadeiro motivo por trás da medida. O Brasil está tentando romper sua dependência histórica dos EUA e assumir um papel de liderança no tabuleiro geopolítico, e Washington não está disposto a tolerar isso.
O curioso é que, enquanto a direita brasileira se divide entre celebrar ou criticar a chantagem de Trump, a esquerda abraça com entusiasmo outra forma de pressão externa: a da União Europeia, que há anos bloqueia o acordo Mercosul-UE sob o pretexto de preocupações ambientais.
A França, principal voz contra o acordo, não esconde seu desprezo pela ideia de um Brasil forte e soberano. O que une europeus e norte-americanos, por mais que disputem entre si, é o pavor de um futuro no qual o Brasil não seja mais um mero coadjuvante, mas um ator central na definição das regras da nova ordem mundial.
Nesse jogo de poder, tanto a direita quanto a esquerda brasileira falham ao não perceber que o problema não está em Trump ou no protecionismo europeu, mas na resistência das potências ocidentais em aceitar que o Brasil cresça demais.
A direita se ilude ao achar que bajular Washington garante proteção, enquanto a esquerda acredita, ingenuamente, que a Europa é uma aliada progressista.
Mas a verdade é que ambos os lados do Atlântico veem o Brasil como um território a ser explorado, nunca como um igual. E a taxação de Trump é só o primeiro aviso: se o país insistir em sair do lugar que lhe foi designado, a resposta será sempre a mesma–mais pressão, mais chantagem, mais tentativas de controle.
O Brasil, enfim, está sendo tratado como um player adulto.
Resta saber se está pronto para agir como um.

