Chegou a época do ano que me deixa mais confortável. Os meses de frio têm esse poder estranho de aquecer por dentro — talvez seja o cheiro de fogueira, talvez seja a memória.
Gosto do São João. Sempre gostei. Mas não gosto mais do movimento. Já fui de chegar no Parque do Povo de tarde e sair no outro dia, com os pés doendo e a garganta rouca de tanto gritar para ser ouvido no meio do forró. A idade vai dando juízo — coisa que nunca tive em abundância, confesso. Mas nunca é tarde, né?
O Parque do Povo completou quarenta anos. Eu estava lá trinta deles, de frio a frio, de junho a junho. Fui testemunha e participante daquele lugar quando ele ainda era um centro de encontros — simples, quente, humano. Um lugar onde as pessoas iam para se encontrar, não para aparecer.
Deixei de ir quando percebi que aquilo havia se transformado em outra coisa. Virou negócio. Virou palco. E palco, como se sabe, tem atores — e a plateia vai sumindo aos poucos, cansada de pagar ingresso para assistir aos outros viverem.
Hoje, no PP, ou você se espreme num show ou tenta um espaço que, geralmente, não existe. Prefiro não ir. Ou vou uma vez, por nostalgia, para confirmar, com a tristeza honesta de quem conheceu o original, que aquilo não é mais o meu Parque do Povo.
O que vejo hoje, e não só no São João, são aparências. As pessoas precisam se mostrar — dizer que estão felizes, que são ricas, elegantes, bem resolvidas. Paquerar virou crime. Dançar virou pecado. Ter alguém do lado, um parceiro, um namoro, é quase um desvio de comportamento no roteiro que o mundo moderno escreveu para todo mundo.
Sou de outro tempo. Um tempo em que a gente ia para a festa exatamente para isso: paquerar, roubar beijos, puxar alguém para dançar sem precisar de advogado e formulário de consentimento. Boa parte dos meus amigos encontrou o amor da vida naquelas festas e está casado desde então. Eu casei velho — não entro nessa conta. Mas mesmo quando casei, o clima entre as pessoas ainda era melhor. Havia menos pose e mais gente.
Se hoje eu estivesse solteiro e usasse as técnicas daquele tempo, seria preso na primeira tentativa. O que era inocência virou aberração. O que era cortejo virou assédio. Não estou dizendo que tudo era perfeito antes — estou dizendo que a leveza sumiu, e a saudade disso dói mais do que os joelhos no frio de junho.
Prefiro ficar com o frio mesmo. Com a serra, a rede, o forrozinho na radiola e a fogueira na frente da vila.
Sem palco. Sem pose. Sem precisar provar nada para ninguém.
Feliz Junho.
Hélder Teixeira
